Metade dos adultos que têm depressão começaram a ter sintomas antes dos 18 anos, apontam estudos — Foto: Pixabay
Uma estimativa da Organização Mundial de Saúde (OMS) aponta que pelo
menos 30% da população mundial sofrerá algum episódio de depressão ao
longo da vida. E embora esse tipo de doença seja habitualmente
diagnosticada na vida adulta, estudos apontam que aproximadamente 50%
dos adultos portadores de depressão relataram início dos sintomas antes
dos 18 anos.
A depressão é uma doença com diagnóstico psiquiátrico que pode ser
desencadeada tanto pela carga genética quanto pelo ambiente onde a
pessoa está inserida. Não há consenso sobre qual deles seria
predominante.
"Cada criança manifesta sua carga genética predisposta de um jeito. Ela
pode ser muito sensível com uma carga genética grande e o mínimo de
estímulo negativo pode precipitar o início de um sintoma, seja uma crise
de ansiedade ou uma fobia", afirma a psiquiatra Lee Fu, especialista em
crianças e adolescentes e autora de três livros sobre o tema.
Um quadro depressivo, entretanto, só pode ser constatado quando há um
sentimento de tristeza contínuo, sem motivo aparente, por pelo menos 15
dias. O diagnóstico depende da avaliação do histórico de doenças
psiquiátricas da família, e ainda não há exames clínicos, como os de
sangue ou ressonância magnética, capazes de identificar o transtorno.
Responsável pelo Programa de Transtornos Afetivos na Infância e na
Adolescência do Hospital das Clínicas da Universidade de São Paulo
(USP), Lee explica que os adolescentes são um público vulnerável porque
ainda estão adquirindo "alternativas para lidar com a vida e,
obviamente, têm mais frustrações". Por isso, segundo ela, o que acontece
na escola tem importância na vida do jovem e não pode ser
negligenciado.
"Quando eles chegam ao consultório, o que trazem é sempre a ponta do
iceberg. Os pais falam: meu filho é muito tímido, caseiro, não vai para
festas, só fica em casa jogando videogame. Podem estar acontecendo
coisas horrorosas, como um abuso, ou ainda, ser o temperamento do
jovem", diz Lee.
Queda no rendimento escolar
Quando se tratam de crianças e adolescentes, os quadros depressivos,
fatalmente, desembocam na queda do rendimento escolar, porque um dos
sintomas é a alteração da forma e da velocidade do raciocínio, segundo
Lee Fu. Também é comum que estes alunos passem a faltar mais nas aulas.
"A criança diz que presta atenção, mas não consegue lembrar de tudo que
estudou. Podem ser alunos que antes tinham notas boas, mas agora a
cabeça não funciona. Esse tipo de situação faz parte dos sintomas
depressivos", afirma Lee.
A mudança no boletim escolar costuma ser o grande sinal de alerta aos
pais. A psiquiatra diz que não é possível generalizar e afirmar que a
escola não olha para este tipo de problema, mas ela reconhece que tanto a
rede pública quanto a privada não conseguem dar conta de todas as
questões inerentes à infância e à adolescência.
"A escola pública talvez pegue metade dos casos, pois tem menos
recursos, menos professores, mas há educadores bons. Uns que até pecam
por excesso."
Trocar de escola nem sempre resolve o problema. "Às vezes, a criança ou
adolescente precisa mudar o ambiente, pois não dá tempo de a escola
resolver o problema, como fobia, insegurança e ansiedade. Mas depende de
caso a caso."
Mudança de comportamento
Um quadro depressivo nem sempre está ligado a melancolia, tristeza e
introspecção. Comportamentos como mau humor em excesso, irritação ou até
aumento de apetite e sono podem também ser sintomas da depressão.
"As mudanças de hábitos às vezes são percebidas pelas escolas quando o
adolescente passa a ficar mais quieto ou isolado. Algumas escolas têm
essa atenção", diz Lee Fu.
Além da queda do rendimento escolar, outros sintomas da depressão são
alteração de humor, apatia, choro em excesso. O adolescente também pode
ficar mais rabugento e se queixar de não saber o que fazer.
Mudança de peso, alterações de sono (como demorar mais para conseguir
dormir e ter mais pesadelos) e baixa autoestima também podem ser sinais.
Outro indício característico é a perda da capacidade de sentir prazer
em coisas que antes eram prazerosas.
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