quinta-feira, 10 de janeiro de 2019

Há 195 anos, Quixeramobim destituiu o imperador e proclamou a República

Em 9 de janeiro de 1824, a Câmara da vila de Campo Maior, atual município de Quixeramobim (a 204 quilômetros de Fortaleza), declarou destituído o imperador do Brasil, dom Pedro I, e a dinastia de Bragança. Decidiram também os políticos reunidos na atual Quixeramobim instaurar no Brasil uma "República estável e liberal".
O ato foi precursor da Confederação do Equador, um dos mais importantes movimentos revolucionários da história do Nordeste. De caráter separatista, o movimento tem seu marco inaugural datado pela historiografia em 2 de julho de 1824, quando Manoel de Carvalho Paes de Andrade declarou a independência de Pernambuco e convocou províncias vizinhas a aderirem. A intenção era formar uma nova nação, composta por Piauí, Ceará, Rio Grande do Norte, Alagoas, Sergipe, Paraíba e Pernambuco. Os cearenses não apenas deram o mais decidido apoio ao movimento, como o anteciparam em seis meses.
A revolta se deveu à dissolução da Assembleia Constituinte pelo imperador. Em 3 de maio de 1823, os parlamentares se reuniram para começar a elaborar a primeira Constituição brasileira. Nos debates sobre temas polêmicos, ficaram evidenciadas diferenças de opinião entre os deputados e o imperador. Em 12 de novembro de 1823, no que ficou conhecida como "noite da agonia", dom Pedro ordenou ao Exército que invadisse o plenário da Constituinte. Parlamentares foram presos e exilados. Foi esse o estopim para a proclamação de Quixeramobim. 
"(..) em vista à horrorosa perfídia de D. Pedro I, imperador do Brasil, banindo a força armada as cortes convocadas no Rio de Janeiro contra mil protestos firmados pela sua própria mão, ele deixava a sua dinastia de ser o supremo chefe da nação e se novas cortes convocadas em lugar tudo assim o aprovarem", registrou a histórica ata da sessão da Câmara da então Campo Maior. 
"Finalmente, cessando a dinastia de Bragança de ser o 1º chefe da nação, protestam firmar uma república estável e liberal que defenda seus direitos com exclusão de outra qualquer família", deliberaram ainda os integrantes da Câmara da vila, instituindo novo regime para substituir a dinastia imperial.
Além disso, a Câmara da atual Quixeramobim determinou que fosse oficiado o general José Pereira Filgueiras para assumir o comando das tropas do Ceará e "estabelecer-se um novo governo salvador" na província.
A posição foi articulada pelo padre Gonçalo Inácio de Loyola Albuquerque e Mello. Natural de Riacho dos Guimarães, atual Groaíras, ele entrou para a história como Padre Mororó. 
Desdobramentos 
Como se sabe, a proclamação de Quixeramobim não foi obedecida. Dois meses depois, dom Pedro outorgou uma Carta escrita conforme sua vontade e instituiu um quarto poder - o Moderador - exercido de forma pessoal e privativa pelo próprio imperador, e que ficava acima dos outros poderes. A Constituição tinha caráter centralizador e tirava poderes das províncias. Vigorou até a queda do Império e foi até hoje a mais duradoura Carta constitucional brasileira. A República só seria proclamada em 15 de novembro de 1889, passados 65 anos. 
O que não significa que o ato em Campo Maior tenha sido mera bravata inconsequente. Foi o início de uma reação em cadeia, com resultados trágicos. No mês seguinte, a Câmara de Aracati enviou ofício ao governo provisório da província, expressando indignação semelhante. Não cogitava tirar dom Pedro do trono, mas defendia governo mais descentralizado. Em julho, Pernambuco iniciou formalmente a Confederação do Equador.

Além do Ceará e Pernambuco, houve adesão na Paraíba e no Rio Grande do Norte. Vilas piauienses também deram apoio. Líderes do movimento esperavam apoio de Alagoas - desmembrada de Pernambuco alguns anos antes - e Sergipe, recém-emancipado da Bahia. O presidente da província de Sergipe, Manuel Fernandes da Silveira, acabaria deposto acusado de colaborar com os revoltosos.
A resposta à Confederação foi extrema. Herói das guerras napoleônicas, o mercenário inglês Thomas Cochrane já havia sido contratado por dom Pedro para lutar contra as tropas contrárias à independência, em 1822 e 1823. Em 1824, seus serviços foram requisitados, e bem pagos, para reprimir a revolução nordestina. Recife se rendeu em setembro de 1824, após banho de sangue. Vilas cearenses continuaram na luta e foram saqueadas e incendiadas. Quando Cochrane aportou em Fortaleza, muitos revoltosos se renderam.
Padre Mororó e outros líderes, como Pessoa Anta e Feliciano Carapinima, foram executados no antigo Campo da Pólvora, que se tornaria posteriormente o Passeio Público, chamado por isso Praça dos Mártires. Outros participantes do movimento foram condenados ao degredo na Amazônia ou a trabalhos forçados em Fernando de Noronha.


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