Unsplash
O Brasil é um dos países que mais bebem cerveja no mundo, com um
consumo de cerca de 70 litros por ano por pessoa. O que é certo é que no
verão se toma mais, porque para muita gente a estação mais quente do
ano "pede" uma gelada. Mas é preciso ter cuidado. Alguns especialistas
alertam que esta bebida, principalmente em excesso, pode aumentar a
chance de infecção pelos vírus da dengue, zika, chikungunya e malária.
O professor titular do Departamento de Microbiologia, Imunologia e
Parasitologia (MIP) do Centro de Ciências Biológicas (CCB) da
Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), Carlos Brisola Marcondes,
cita dois estudos, um realizado no Japão e outro em Burquina Faso, que
verificaram que a ingestão de cerveja atrai mais mosquitos para o
bebedor.
Ou seja, a bebida aumenta o número de picadas dos insetos hematófagos
transmissores de doenças em quem a consome, e, consequentemente o risco
da doença.
Na pesquisa japonesa, foi testada uma dose de 350 ml de cerveja feita de cevada, para a atração do Aedes albopictus, parente próximo do Aedes aegypti.
Em Burquina Faso, os pesquisadores deram aos participantes uma
quantidade não informada de uma feita com sorgo (4% de álcool),
localmente chamada de dolo, para verificar o resultado sobre a espécie Anopheles gambiae, transmissor da malária.
"Em ambos os estudos, se notou um aumento significativo na atração dos
insetos", conta Marcondes. "Além disso, no segundo trabalho,
verificou-se também o estímulo ao voo dos mosquitos. Este efeito foi
atribuído à dispersão do álcool pelo organismo com presença de etanol no
suor."
De acordo com ele, no estudo feito no Japão houve variações na
temperatura corporal do bebedor, dependentes da sua tolerância ao
álcool.
"Em Burquina Faso, no entanto, se observou que a redução de temperatura
corporal e a quantidade de gás carbônico (CO2) exalado (esta última não
influenciada pela cerveja) não tiveram efeito significativo sobre a
atração", informa Marcondes.
"Os autores supuseram que com a cerveja haveria maior produção de
cairomônios (as substâncias voláteis emanadas dos bebedores), que
atrairia mais mosquitos."
O que atrai mosquitos
Esses cairomônios e o álcool não são as únicas substâncias que aumentam
o número de picadas. "Há várias que atraem mosquitos, sendo as mais
conhecidas o gás carbônico e o ácido láctico (liberado no suor), e
certamente há outras que ocorrem naturalmente no corpo que os repelem.",
diz Marcondes.
"Para algumas espécies, crianças são mais atraentes que adultos e
negros mais que brancos, mas para outras é o contrário. Isto é um campo
de grande importância a ser explorado por mais pesquisas científicas."
O médico sanitarista Rodolpho, Telarolli Júnior, da Faculdade de
Ciências Farmacêuticas do campus de Araraquara, da Universidade Estadual
Paulista (Unesp), enumera outros exemplos.
"Alguns estudos demonstram (mas isso não é unânime) que os mosquitos
são atraídos por indivíduos cuja respiração contenha maiores teores de
gás carbônico, como é o caso daqueles que acabaram de fazer exercícios
físicos e estão com o metabolismo mais acelerado", explica. "O mesmo
valeria para as gestantes, que apresentam condição semelhante durante
toda a gravidez, bem como os indivíduos com sobrepeso ou obesidade."
De acordo ele, os insetos hematófagos teriam maior atração pelas
pessoas e pelas áreas do corpo humano com maior temperatura. "É o caso
dos indivíduos com febre, como os portadores de doenças transmissíveis,
como a dengue, por exemplo", diz Telarolli.
Segundo ele, por motivos ainda ignorados, alguns estudos demonstram que
há espécies que têm preferência em picar indivíduos com tipo O de
sangue, em detrimento daqueles com outros tipos (A, B e AB). "Outras
pesquisas têm demonstrado que o uso de roupas escuras é um fator que
pode atrair mais os mosquitos", revela Telarolli.
"Então, em áreas de grande infestação por esses insetos, é prudente
usar roupas de cor clara e os portadores de sangue tipo O devem redobrar
os cuidados."
O que se pode concluir, segundo Marcondes, é que a pele e o ar expirado
exalam substâncias que influenciam a preferência de mosquitos,
diferenciando os indivíduos e levando os insetos a ter preferência por
crianças, diferente da que têm por adultos.
"Há também variações entre raças", diz. "Mas a ecologia química da
atração deles é um assunto difícil e ainda pouco compreendido. A
hematofagia (ingestão de sangue) desses animais depende de fatores
complexos, envolvendo olfato e visão, esta última principalmente em
espécies diurnas, como a mosca tsé-tsé, da doença do sono, e o nosso bem
conhecido Aedes aegypti."
/s2.glbimg.com/hmaHHrcngArLTTw6SlfsHUxYdZE%3D/200x0/filters%3Aquality%2870%29/i.s3.glbimg.com/v1/AUTH_59edd422c0c84a879bd37670ae4f538a/internal_photos/bs/2018/O/W/HwkTzFSHWacfk1GndHhg/bbc-news-tile-hr-rgb.jpg)
Nenhum comentário:
Postar um comentário