O objetivo é incentivar a arrecadação própria para reduzir o papel dos
recursos da União na manutenção e investimento nas universidades. Fontes
do ministério dizem que mostrar o potencial de arrecadação própria e
dar mais autonomia para o uso desse recurso seria um caminho para
convencer os reitores e a comunidade acadêmica sobre a cobrança de
mensalidades. Durante a eleição, a equipe de Bolsonaro já defendia a
cobrança de mensalidade nas universidades federais para alunos de maior
renda - uma das bases para a proposta é um documento feito em 2017 pelo
Banco Mundial que sugeriu ao Brasil acabar com a gratuidade do ensino
superior.
A proposta de mudar a regra para uso de recursos próprios já era
estudada pela gestão anterior do MEC e foi recebida com entusiasmo pela
nova equipe. As alterações têm de passar pelo Congresso e já haveria
disposição de parlamentares. No fim de 2018, o Centro de Estudos e
Debates Estratégicos da Câmara finalizou relatório em que propõe uma
nova emenda constitucional para liberar os recursos arrecadados pelas
universidades.
A Associação Nacional dos Dirigentes das Instituições Federais de
Ensino Superior (Andifes) enxerga como positiva a mudança do uso da
arrecadação própria, mas teme que a alteração possa resultar em um novo
enxugamento de recursos da União para as universidades. Levantamento da
Andifes mostra que o orçamento para custeio e investimento caiu de R$
9,9 bilhões em 2014 para R$ 7,7 bilhões no ano passado.
Até 2015, as universidades contornavam a redução de recursos da União
com a captação de recursos próprios, como cobrança de aluguel por uso de
seus espaços, prestação de serviços, contratos de pesquisa e taxa de
matrículas (para cursos de extensão). Com o teto de gastos federais,
porém, qualquer "excesso" de arrecadação deve ser usado para abater a
dívida pública, ou seja, a instituição de ensino não pode ficar com o
recurso.
UnB foi a mais afetada por bloqueio
Segundo acompanhamento da Andifes, a Universidade de Brasília (Unb) foi
a que teve o maior valor de arrecadação própria bloqueado. A reitora
Márcia Moura conta que a instituição tinha R$ 98 milhões poupados nos
últimos dez anos com recursos próprios, a maior parte de aluguel de
imóveis.
A verba era poupada para que a universidade construísse um prédio e
investisse em infraestrutura (troca de computadores, renovação dos
livros da biblioteca, etc). No entanto, o recurso foi congelado e só
parte dele - R$ 65 milhões -, liberado em 2018. E a União descontou o
mesmo valor que iria repassar. Ou seja, o dinheiro da arrecadação
própria teve de ser usado para o pagamento de servidores.
O mesmo aconteceu com a Universidade Federal do Paraná (UFPR), que teve
bloqueados R$ 81 milhões de captação própria por meio de pesquisa. No
fim de 2018, R$ 65 milhões foram liberados. "Mas a União subtraiu o
mesmo valor, que tinha sido liberado, do repasse para a folha de
pagamento de pessoal, ativo e inativo. Ou seja, o recurso que a gente
captou e que tínhamos planejado uma outra destinação, foi
obrigatoriamente para pagar os servidores e aposentados", explica
Ricardo Marcelo Fonseca, reitor da instituição.
Relatório elaborado pela Câmara propõe uma nova emenda à constituição
para excluir as despesas de instituições federais de ensino, que sejam
financiadas por receitas próprias, da base de cálculo e dos limites
individualizados para as despesas primárias do governo federal. Ou seja,
excluir o recurso próprio do entrave fiscal imposto pelo teto de
gastos.
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